14 respostas de S. Josemaria Escrivá a perguntas sobre o amor na família. - Missão Família

14 respostas de S. Josemaria Escrivá a perguntas sobre o amor na família.

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O que é a família? Como ser bom pai e boa mãe? Que papel tem a família na educação dos filhos? Como conjugar a autoridade e a liberdade? Como viver a confiança mútua no dia a dia?

“O que é a família? Pergunta o Papa Francisco, e ele próprio responde: “Para além dos seus problemas prementes e das suas necessidades decisivas, a família é um «centro de amor», onde reina a lei do respeito e da comunhão, capaz de resistir ao ímpeto da manipulação e da dominação por parte dos «centros de poder» mundanos”.
“No seio da família, ninguém é posto de lado: nela encontram acolhimento tanto o idoso quanto a criança. A cultura do encontro e do diálogo, a abertura à solidariedade e à transcendência encontram nela a sua origem.
Por esta razão, a família constitui uma grande «riqueza social». Neste sentido, gostaria de frisar duas contribuições primárias: a estabilidade e a fecundidade”.

Apresentamos de seguida, 14 respostas de S. Jose maria a perguntas sobre o amor na família, os conflitos familiares, a relação entre pais e filhos, a educação dos filhos e a fé na família.

1- Como fazer para que o amor esteja presente na vida familiar?

2- Como ser bom pai e boa mãe de família?

3- O ambiente que rodeia os filhos, tem também influência na sua educação, no seu modo de ver as coisas. Que papel tem a família na educação dos filhos?

4- Como solucionar a falta de tempo que sentem muitos pais nos dias de hoje para estar com os filhos, para a vida familiar? Muitas vezes, quando a mãe tem um trabalho fora de casa pesam sobre ela os trabalhos da casa, e quando permanece a tempo inteiro dedicada à família, sente-se limitada nas suas possibilidades. Que diria às pessoas que experimentam estas contradições? Como conciliar a vida profissional e a familiar?

5- Educar, na prática, não é tarefa fácil. Pode dizer-nos algumas ideias chaves para a educação dos filhos?

6- Como aliar a autoridade e a liberdade?

7- Pode concretizar mais o que significa a confiança e a compreensão entre pais e filhos? Como viver a confiança mútua no dia-a-dia?

8- Existe alguma justificação para a atitude que às vezes têm os pais em querer impor aos filhos a escolha de carreira ou de trabalho, de namorado ou de um determinado modo de vida, opondo-se às vezes a que estes sigam o chamamento de Deus para se dedicarem ao serviço das almas? Não seria melhor deixar-lhes liberdade para chegarem à maturidade pessoal?

9- Ter uma família estável, com paz, é sem dúvida desejo de todos. Mas na convivência diária no casamento e na família surgem pequenas questiúnculas ou grandes discussões, dificuldades mais ou menos objetivas e muitas vezes diversidade de pareceres e de opiniões entre pais e filhos. Que fazer para superar essas situações e conflitos familiares?

10- Que fazer quando um filho propõe aos pais uma entrega total a Deus?

11- Falámos do papel dos pais, mas que devem fazer os filhos pela família?

12- Como se manifesta a fé na família?

13- É importante a oração em família?

14- É conveniente que a família reze unida?

1. Como fazer para que o amor esteja presente na vida familiar?
Ao pensar nos lares cristãos, gosto de os imaginar luminosos e alegres, como foi o da Sagrada Família. Cada lar cristão deveria ser um remanso de serenidade, em que, por cima das pequenas contradições diárias, se enxergasse um carinho profundo e sincero, uma tranquilidade funda, fruto de uma fé real e vivida.

Os casados estão chamados a santificar o seu matrimónio e a santificar-se nessa união: cometeriam, por isso, um grave erro. Se edificassem a sua vida espiritual à margem do lar. A vida familiar, as relações conjugais, o cuidado e a educação dos filhos, o esforço por sustentar, manter e melhorar economicamente a família, as relações com as outras pessoas que constituem a comunidade social, tudo isso são situações humanas e correntes que os esposos cristãos devem sobrenaturalizar.

A fé e a esperança hão-de manifestar-se na serenidade com que se focam os grandes ou pequenos problemas que surgem em todos os lares, no empenho com que se persevera no cumprimento do dever. A caridade há-de encher tudo e levará: a partilhar as alegrias e os possíveis dissabores; a saber sorrir, esquecendo-se das preocupações pessoais para atender os outros; a escutar o outro cônjuge ou os filhos, mostrando-lhes que são amados e compreendidos deveras; a passar por alto pequenos atritos sem importância, que o egoísmo poderia transformar em montanhas; a fazer com grande amor os pequenos serviços de que se compõe a convivência diária.

Santificar o lar no dia-a-dia, criar, com carinho, um autêntico ambiente de família: é disso precisamente que se trata. Para santificar cada um dos dias, é necessário exercitar muitas virtudes cristãs; em primeiro lugar, as teologais e, depois, todas as outras: a prudência, a lealdade, a sinceridade, a humildade, o trabalho, a alegria…

Queres um segredo para seres feliz? Dar-se e servir os outros, sem esperar que to agradeçam.

2. Como ser bom pai e boa mãe de família?
Se eu tivesse de dar um conselho aos pais, dar-lhes-ia sobretudo este: que os vossos filhos vejam (não tenhais ilusões: desde crianças, vêem tudo e julgam-no) que procurais viver de acordo com a vossa fé, que Deus não está só nos vossos lábios, que está nas vossas obras; que vos esforçais por serdes sinceros e leias, que vos amais e os amais a eles realmente.

Os pais educam fundamentalmente com a conduta. O que os filhos e as filhas procuram no seu pai ou na sua mãe, não são apenas conhecimentos mais amplos do que os seus ou conselhos mais ou menos acertados, mas algo de maior importância: um testemunho do valor e do sentido da vida, encarnados numa existência concreta e confirmados nas diversas circunstâncias e situações que se sucedem ao longo dos anos.

O segredo costuma estar na confiança. Que os pais saibam educar num clima de familiaridade.

Para mim não existe exemplo mais claro dessa união prática da justiça com a caridade do que o comportamento das mães. Amam com idêntico carinho todos os seus filhos e esse amor leva-as precisamente a tratá-los de modo diferente – com uma justiça desigual – visto que cada um é diferente dos outros.

Assim é que contribuireis melhor para fazer deles homens e mulheres íntegros, capazes de enfrentar com espírito aberto as situações que a vida lhes depare, deservir os seus concidadãos e de contribuir para a solução dos grandes problemas da humanidade, levando o testemunho de Cristo aonde mais tarde venham a encontrar-se na sociedade.

3. O ambiente que rodeia os filhos, tem também influência na sua educação, no seu modo de ver as coisas. Que papel tem a família na educação dos filhos?
Os pais são os principais educadores dos seus filhos, tanto no aspecto humano como no sobrenatural, e hão-de sentir a responsabilidade dessa missão, que exige deles compreensão, prudência, saber ensinar e, sobretudo, saber amar; e devem preocupar-se por dar bom exemplo. A imposição autoritária e violenta não é caminho acertado para a educação. O ideal para os pais é chegarem a ser amigos dos filhos; amigos a quem se confiam as inquietações, a quem se consulta sobre os problemas, de quem se espera uma ajuda eficaz e amável.

A paternidade e a maternidade não terminam com o nascimento; essa participação no poder de Deus, que é a faculdade de gerar, há-de prolongar-se na cooperação com o Espírito Santo para que culmine com a formação de autênticos homens cristãos e autênticas mulheres cristãs.

4. Como solucionar a falta de tempo que sentem muitos pais nos dias de hoje para estar com os filhos, para a vida familiar? Muitas vezes, quando a mãe tem um trabalho fora de casa pesam sobre ela os trabalhos da casa, e quando permanece a tempo inteiro dedicada à família, sente-se limitada nas suas possibilidades. Que diria às pessoas que experimentam estas contradições? Como conciliar a vida profissional e a familiar?
O problema que levanta acerca da mulher não é extraordinário. Com outras particularidades, muitos homens experimentam algumas vezes algo de semelhante.

Em todo o caso, é necessário também pôr em prática pequenos remédios, que parecem banais, mas que não o são: quando há muitas coisas a fazer, é preciso estabelecer uma ardem, é necessário organizar-se.

É necessário que os pais arranjem tempo para estar com os filhos e falar com eles. Os filhos são o que há de mais importante; mais importante do que os negócios, do que o trabalho, do que o descanso.

Nessas conversas, convém escutá-los com atenção, esforçar-se por compreendê-los, saber reconhecer a parte de verdade – ou a verdade inteira – que possa haver em algumas das suas rebeldias. E, ao mesmo tempo, apoiar as suas aspirações, ensiná-los a ponderar as coisas e a raciocinar; não lhes impor uma conduta, mas mostrar-lhes os motivos, sobrenaturais e humanos, que a aconselham. Numa palavra, respeitar a sua liberdade, já que não há verdadeira educação sem responsabilidade pessoal, nem responsabilidade sem liberdade.

5. Educar, na prática, não é tarefa fácil. Pode dizer-nos algumas ideias chaves para a educação dos filhos?
O segredo costuma estar na confiança. Que os pais saibam educar num clima de familiaridade.

Escutai os vossos filhos, dedicai-lhes também o vosso tempo, mostrai que tendes confiança neles; acreditai em tudo o que vos disserem, mesmo que alguma vez vos enganem; não vos assusteis com as suas rebeldias, pois também vós, na idade deles, fostes mais ou menos rebeldes; ide ao seu encontro, até meio do caminho, e rezai por eles. E vereis que recorrerão aos seus pais com simplicidade – podeis ter a certeza disso, se atuais cristãmente – em vez de irem ter, para satisfazer as suas legítimas curiosidades, com um amigalhote desavergonhado ou brutal.

A vossa confiança, a vossa relação amigável com os filhos, receberá como resposta a sinceridade deles para convosco; e isto, mesmo que não faltem disputas e incompreensões de pouca monta, é a paz familiar, a vida cristã.

6. Como aliar a autoridade e a liberdade?
Aconselho sempre os pais que procurem tornar-se amigos dos filhos. Pode-se harmonizar perfeitamente a autoridade paterna, que a própria educação requer, com um sentimento de amizade que exige pôr-se de alguma maneira ao mesmo nível dos filhos.

Os jovens – mesmo os que parecem mais indóceis e desprendidos – desejam sempre essa aproximação com os pais. O segredo costuma estar na confiança. Que os pais saibam educar num clima de familiaridade, que nunca deem a impressão de que desconfiam, que deem liberdade e que ensinem a administrá-la com responsabilidade pessoal.

Os pais podem e devem prestar aos filhos uma ajuda preciosa, descobrindo-lhes novos horizontes

É preferível que se deixem enganar alguma vez. A confiança que se põe nos filhos faz com que eles próprios se envergonhem de terem abusado, e se corrijam. Pelo contrário, se não têm liberdade, se veem que não se confia neles, sentir-se-ão levados a enganar sempre.

Quando se trata de coisas que são objeto da liberdade de opinião, como nesses terrenos ninguém pode pretender estar na posse da verdade absoluta, o convívio mútuo, cheio de afeto, é um meio concreto para aprender dos outros o que eles nos podem ensinar, e também para que os outros aprendam, se quiserem, o que cada um daqueles que com eles convivem lhes pode ensinar, que sempre será alguma coisa.

Não é cristão, nem sequer humano, que uma família se divida por estas questões. Quando se compreende a fundo o valor da liberdade, quando se ama apaixonadamente esse dom divino da alma, ama-se o pluralismo que a liberdade traz consigo.

7. Pode concretizar mais o que significa a confiança e a compreensão entre pais e filhos? Como viver a confiança mútua no dia-a-dia?
Essa amizade de que falo, esse saber pôr-se ao nível dos filhos facilitando-lhes que falem confiadamente dos seus pequenos problemas, torna possível algo que me parece de grande importância: que sejam os pais quem dê a conhecer aos filhos a origem da vida, de um modo gradual, adaptando-se à sua mentalidade e à sua capacidade de compreender, antecipando-se um pouco à sua natural curiosidade. É necessário evitar que os filhos rodeiem de malícia esta matéria, que aprendam uma coisa em si mesma nobre e santa por uma má confidência dum amigo ou duma amiga. Isto mesmo costuma ser um passo importante para firmar a amizade entre pais e filhos, impedindo uma separação exatamente no despertar da vida moral.

Por outro lado, os pais têm também de procurar manter o coração jovem, para que lhes seja mais fácil receber com simpatia as aspirações nobres e inclusivamente as extravagâncias dos filhos. A vida muda e há muitas coisas novas que talvez não nos agradem – é possível até que não sejam objetivamente melhores que outras de antes – mas que não são más, são simplesmente outros modos de viver sem transcendência de maior. Em não poucas ocasiões, os conflitos aparecem porque se dá importância a ninharias que se superam com um pouco de perspetiva e de sentido de humor.

8. Existe alguma justificação para a atitude que às vezes têm os pais em querer impor aos filhos a escolha de carreira ou de trabalho, de namorado ou de um determinado modo de vida, opondo-se às vezes a que estes sigam o chamamento de Deus para se dedicarem ao serviço das almas? Não seria melhor deixar-lhes liberdade para chegarem à maturidade pessoal?
Em última instância, está claro que as decisões que determinam o rumo de uma vida deve tomá-las cada um pessoalmente, com liberdade, sem coação nem pressão de espécie alguma.

Isto não quer dizer que não seja necessária, ordinariamente, a intervenção de outras pessoas. Precisamente porque são passos decisivos, que afetam uma vida inteira, e porque a felicidade depende em grande parte de como se deem, é lógico que requeiram serenidade, que se evite a precipitação, que exijam responsabilidade e prudência. E uma parte da prudência consiste justamente em pedir conselho. Seria presunção – que se costuma pagar cara – pensar que podemos decidir sem a graça de Deus e sem o calor e a luz de outras pessoas, especialmente dos nossos pais.

Os pais podem e devem prestar aos filhos uma ajuda preciosa, descobrindo-lhes novos horizontes, comunicando-lhes a sua experiência, fazendo-os refletir para que não se deixem arrastar por estados emocionais passageiros, oferecendo-lhes uma apreciação realista das coisas. Umas vezes, prestarão essa ajuda com o seu conselho pessoal; outras, animando os seus filhos a recorrer a outras pessoas competentes: a um amigo sincero e leal, a um sacerdote douto e piedoso, a um perito em orientação profissional.

Mas o conselho não tira a liberdade, dá elementos de opinião, e isso amplia as possibilidades de escolha e faz com que a decisão não seja determinada por factores irracionais. Depois de ouvir os pareceres de outros e de ponderar tudo bem, chega um momento em que é preciso escolher, e então ninguém tem o direito de violar a liberdade. Os pais devem precaver-se da tentação de se quererem projectar indevidamente nos filhos – de construí-los segundo as próprias preferências -, devem respeitar as inclinações e as aptidões que Deus dá a cada um. Se há verdadeiro amor, isto, em geral, torna-se simples. Inclusive no caso extremo, quando o filho toma uma decisão que os pais têm fortes motivos para julgar errada e até para prevê-la como origem de infelicidade, a solução não está na violência mas em compreender e – mais de uma vez – em saber permanecer a seu lado para ajudá-lo a superar as dificuldades e, se fosse necessário, para extrair daquele mal todo o bem possível.

9. Ter uma família estável, com paz, é sem dúvida desejo de todos. Mas na convivência diária no casamento e na família há pequenas questiúnculas ou grandes discussões, dificuldades mais ou menos objetivas, e muitas vezes diversidade de pareceres e de opiniões entre pais e filhos. Que fazer para superar essas situações e conflitos familiares?
A minha resposta não pode ser senão uma: conviver, compreender, desculpar.

Sejamos sinceros: a família unida é o normal. Há atritos, diferenças… Mas isto são coisas banais, que, até certo ponto, contribuem inclusivamente para dar sabor aos nossos dias. São insignificâncias que o tempo supera sempre. Depois, só fica o estável, que é o amor, um amor verdadeiro – feito de sacrifício – e nunca fingido, que os leva a preocuparem-se uns com os outros, a adivinhar um pequeno problema e a sua solução mais delicada. E, porque tudo isto é normal, a maior parte das pessoas entendeu-me muito bem quando me ouviu chamar – já o venho repetindo desde a década de 20 – dulcíssimo preceito ao quarto mandamento do Decálogo.

O problema é antigo, se bem que talvez agora se apresente com mais frequência ou de forma mais aguda, por causa da rápida evolução que caracteriza a sociedade actual. É perfeitamente compreensível e natural que os jovens e os adultos vejam as coisas de modo diferente. Sempre assim foi. O mais surpreendente seria que um adolescente pensasse da mesma maneira que uma pessoa madura. Todos sentimos impulsos de rebeldia para com os mais velhos quando começamos a formar o nosso critério com autonomia, e todos também, com o correr dos anos, compreendemos que os nossos pais tinham razão em muitas coisas, que eram fruto da sua experiência e do amor por nós. Por isso compete em primeiro lugar aos pais – que já passaram por esse transe – facilitar o entendimento, com flexibilidade, com espírito jovial, evitando esses possíveis conflitos com amor inteligente.

10. Que fazer quando um filho propõe aos pais uma entrega total a Deus?
Os pais que amam deveras e procuram sinceramente o bem dos seus filhos, depois dos conselhos e das considerações oportunas, devem-se retirar com delicadeza, para que nada prejudique o grande bem da liberdade que torna o homem capaz de amar e servir a Deus. Devem lembrar-se de que o próprio Deus quer ser amado e servido com liberdade, e respeita sempre as nossas decisões pessoais: Deus deixou o homem – diz-nos a Escritura – nas mãos do seu livre-arbítrio (Ecle. 15, 14).

Quando pais católicos não compreendem essa vocação, penso que fracassaram na sua missão de formar uma família cristã, que nem sequer são conscientes da dignidade que o Cristianismo dá à sua própria vocação matrimonial. Aliás, a experiência que tenho no Opus Dei é muito positiva. Costumo dizer aos sócios da Obra que devem noventa por cento da sua vocação aos seus pais, porque os souberam educar e os ensinaram a ser generosos. Posso assegurar que na imensa maioria dos casos – praticamente na totalidade – os pais não só respeitam como também amam essa decisão dos filhos e que passam a ver a Obra como uma ampliação da própria família. É uma das minhas grandes alegrias e uma confirmação mais de que, para sermos muito divinos, temos de ser também muito humanos.

11. Falámos do papel dos pais, mas que devem fazer os filhos pela família?

Os filhos têm de pôr também alguma coisa da sua parte. Ajuventude sempre teve uma grande capacidade de entusiasmo por todas as coisas grandes, pelos ideais elevados, por tudo o que é autêntico. Convém ajudá-los a compreender a beleza despretensiosa – por vezes calada e sempre revestida de naturalidade – que há na vida dos seus pais. Que reparem, sem lhes causar tristeza, no sacrifício que fizeram por eles, na sua abnegação – muitas vezes heróica – para manter a família. E que os filhos aprendam também a não dramatizar, a não representar o papel de incompreendido. Que não esqueçam que estarão sempre em dívida para com os pais e que o modo de corresponderem – já que não podem pagar o que devem – deve ser feito de veneração, de carinho grato, filial.

12. Como se manifesta a fé na família?
A fé e a esperança hão-de manifestar-se na serenidade com que se focam os grandes ou pequenos problemas que surgem em todos os lares, no empenho com que se persevera no cumprimento do dever.

A caridade há-de encher tudo e levará: a partilhar as alegrias e os possíveis dissabores; a saber sorrir, esquecendo-se das preocupações pessoais para atender os outros; a escutar o outro cônjuge ou os filhos, mostrando-lhes que são amados e compreendidos deveras; a passar por alto pequenos atritos sem importância, que o egoísmo poderia transformar em montanhas; a fazer com grande amor os pequenos serviços de que se compõe a convivência diária.

13. É importante a oração em família?
Considero que é precisamente o melhor caminho para dar aos filhos uma autêntica formação cristã. A Sagrada Escritura fala-nos dessas famílias dos primeiros cristãos – a Igreja doméstica, diz S. Paulo (1 Cor. 16, 1 9) – às quais a luz do Evangelho dava novo impulso e nova vida.

Em todos os ambientes cristãos se conhecem por experiência os bons resultados que dá essa natural e sobrenatural iniciação à vida de piedade, feita no calor do lar. A criança aprende a colocar o Senhor na linha dos primeiros e fundamentais afectos, aprende a tratar a Deus como Pai e à Virgem como Mãe; aprende a rezar seguindo o exemplo dos pais. Quando se compreende isto, vê-se a enorme tarefa apostólica que os pais podem realizar e como têm obrigação de ser sinceramente piedosos, para poderem transmitir – mais do que ensinar – essa piedade aos filhos.

14. É conveniente que a família reze unida?
Tratar-se-á de costumes diversos segundo os lugares, mas penso que sempre se deve fomentar algum ato de piedade, que os membros da família realizem juntos, de forma simples e natural, sem beatices. Há práticas de piedade – poucas, breves e habituais – que sempre se viveram nas famílias cristãs, e entendo que são maravilhosas: a oração antes e depois das refeições,a recitação do Terço juntos (…), as orações pessoais ao levantar e ao deitar..

Dessa maneira conseguiremos que Deus não seja considerado um estranho a quem se vai ver uma vez por semana à igreja, ao Domingo. Que Deus seja visto e tratado como é na realidade, também no meio do lar, porque, como disse o Senhor, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, aí estou Eu no meio deles (Mat. 18, 20).

Penso que sempre se deve fomentar algum ato de piedade, que os membros da família realizem juntos, de forma simples e natural, sem beatices

Digo com gratidão e com orgulho de filho que continuo a rezar – de manhã e à noite e em voz alta – as orações que aprendi, quando era criança, dos lábios de minha mãe. Essas orações levam-me a Deus, fazem-me sentir o carinho com que me ensinaram a dar os meus primeiros passos de cristão e, oferecendo ao Senhor o dia que começa ou dando-Lhe graças pelo que acaba, peço a Deus que aumente no Céu a felicidade dos que especialmente amo, e no Céu depois nos mantenha unidos para sempre.

Os textos foram selecionados do livro Temas Atuais do Cristianismo , que reúne sete entrevistas que S. Josemaria concedeu, entre 1966 e 1968, a Le Figaro, The New York Times, Time, L’Osservatore della Domenica e a várias revistas espanholas (Telva, Gaceta Universitaria e Palabra), e a homilia , O Matrimónio vocação cristã publicada no livro Cristo que passa.

Para saber mais:
Catecismo da Igreja Católica, nn. 2197-2257
A educação dos filhos
10 Perguntas sobre o matrimónio
Carta às Famílias, do Papa João Paulo II
Exortação apostólica Familiaris Consortio

fonte: www.pt.josemariaescriva.info