O Pregador da Casa Pontifícia, Frei Raniero Cantalamessa, conduziu nesta sexta-feira a segunda pregação do Advento, da qual participam o Papa Francisco e a Cúria Romana, e falou sobre a Trindade, que, segundo ele, “não é apenas um mistério”, mas sim “uma realidade viva”.

O capuchinho explicou que “o único Deus, aquele que na Bíblia diz: ‘Eu Sou!’, é o Pai que gera o Filho e que com ele exala o Espírito, comunicando-lhes toda a sua divindade”. Assim, ressaltou, “é o Deus comunhão de amor, no qual unidade e trindade procedem da mesma raiz e do mesmo ato e formam uma Triunidade”.

“Aquele ‘tu’ ao qual nos dirigimos na oração, conforme os casos e a graça de cada um, pode ser uma das três pessoas divinas em particular: o Pai, o Filho Jesus Cristo, ou o Espírito Santo, sem se perder a totalidade. Para a comunhão trinitária, de fato, em cada pessoa divina estão presentes as outras duas”, indicou o pregador.

Nesse sentido, Frei Cantalamessa concluiu que “o Deus vivo dos cristãos só pode ser a Trindade viva” e acrescentou que “a doutrina da Trindade está contida, em síntese, na revelação de Deus como amor”.

“Todo amor implica um amante, um amado e um amor que os une. Todo amor é amor de alguém ou de algo; não se dá um amor ‘vazio’, sim objetivo”, declarou, ressaltando que “dizer: ‘Deus é amor’ é dizer: Deus é trindade”.

Segundo Pe. Cantalamessa, “Deus é amor desde sempre”, pois “antes mesmo de existir um objeto fora de si para amar, tinha em si mesmo o Verbo, o Filho a quem amava com amor infinito, ou seja, ‘no Espírito Santo’”.

Em seguida, o pregador pontifício afirmou que “a Trindade nos mostra o verdadeiro caminho para a unidade”. De acordo com ele, todos “queremos a unidade, todos nós a desejamos do fundo do coração”.

“Por que, então, é tão difícil fazer unidade, se todos nós a desejamos tão ardentemente?”, questionou e, logo respondeu: “É que nós queremos, sim, que se faça a unidade, mas… em torno do nosso ponto de vista”.

Na Trindade, por outro lado, vê-se “a união das três pessoas na única essência”, ou seja, “as três pessoas estão unidas, sem se confundirem; cada pessoa se ‘identifica’ na outra, se dá à outra e fazer ser a outra”.

Trata-se, então de “‘identificar-se’ com o outro, tentando colocar-se, como se diz, em seus sapatos, tentando entender, antes de julgar”.

Além disso, “as três pessoas divinas estão sempre comprometidas em glorificar umas às outras” e cada uma “se dá a conhecer tornando a outra conhecida”.

“O Filho ensina a gritar Abba!; o Espírito Santo ensina a clamar: ‘Jesus é o Senhor!’, e ‘Vem, Senhor’, Maranatha. Eles não ensinam a pronunciar o próprio nome, mas o das outras pessoas”, observou.

Segundo Pe. Cantalamessa, “só um ‘lugar’ no mundo onde a regra ‘ama o próximo como a si mesmo’ é colocada em prática, em um sentido absoluto, e é a Trindade! Cada pessoa divina ama a outra exatamente como a si mesma”.

Por isso, assinalou, “contemplar a Trindade realmente ajuda a vencer ‘a odiosa discórdia do mundo’”.

Assim como em Pentecostes, o Espírito fez com que os discípulos “concordassem”, “Ele está sempre pronto para repetir esse milagre, para sempre transformar a dis-córdia em con-córdia”.

Por fim, o capuchino indicou que, mais do que contemplar e imitar a Trindade, “há algo ainda mais feliz” que se pode fazer: “entrar nela”.

“Nós não podemos abraçar o oceano, mas podemos entrar nele; não podemos abraçar o mistério da Trindade com a nossa mente, mas podemos entrar nele”, expressou e recordou que “Cristo nos deixou um meio concreto para fazê-lo, a Eucaristia”.

“No momento da comunhão se realiza em um sentido estrito a palavra de Cristo: ‘Eu neles e tu em mim’. ‘Quem me vê, vê o Pai’, quem me recebe, recebe o Pai. Nunca conseguiremos apreciar plenamente a graça que nos é oferecida. Comensais da Trindade!”, assinalou.

“A Trindade – concluiu – não é apenas um mistério e um artigo da nossa fé, é uma realidade viva e palpitante. Como eu disse no início, o Deus vivo da Bíblia que procuramos não é outro senão a Trindade viva”.